A Natureza ama esconder-se

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“…a vida é uma criança que brinca,
que move as peças do tabuleiro de xadrez,
um regimento de uma criança…”.

(Heráclito)

“A natureza ama esconder-se”: eu acredito que não existe linguagem humana, seja ela filosófica, narrativa ou oracular, que esteja em condição de entender e descrever a natureza humana. Ou ainda mais e melhor, que esteja em condição de investigar e conhecer a alma humana. Essa qualidade da alma de permanecer oculta à visão e ao entendimento do homem constitui o verdadeiro sentido da filosofia: alma e natureza — primeiro a alma, depois a natureza — são as duas grandes incógnitas da vida, às quais o homem inutilmente dedica seu tempo e sua filosofia.

No passado houve um filósofo que concluiu suas investigações filosóficas escrevendo poucas e concisas palavras: deixem para lá, poupem seu tempo, querendo significar: não vale a pena, não estamos em condição de acrescentar nada de novo àquele pouco que foi dito e que sabemos. O “àquele pouco” acrescento eu, para querer significar que as palavras do nosso vocabulário não seriam suficientes para desvendar a grande e sombria Ísis.

Aquela do filósofo não queria ser uma admissão de incapacidade, mas a clara declaração de que o mistério da vida e da morte é o verdadeiro, único e grande mistério sobre o qual os grandes pensadores inutilmente quebraram a cabeça na impossibilidade de solucioná-lo, e o que é pior, para não admiti-lo, refugiaram-se, cheios de vergonha, atrás de um grande muro de palavras e tratados.

Certamente foram mais diligentes os juízes atenienses quando decidiram condenar Sócrates. Com sua sentença, não julgavam um homem culto, mas um suposto sábio que, por ter usado as palavras de maneira excessiva, estava mantendo sob xeque toda a tradição helênica encerrada no cérebro de Júpiter e no silêncio da pureza dórica dos templos.

Os filósofos da Antiguidade celebraram, no altar da própria vaidade, o sacrifício de um homem que, em vida, jamais havia escrito uma única palavra, limitando-se a conversar, nas horas de lazer, com um grupo de amigos e curiosos que costumavam passear, nas horas quentes da tarde, sob os pórticos dos templos.

A verdadeira sabedoria sempre foi domínio de um saber oculto, dada a incapacidade do homem comum de usar com prudência o lógos e a palavra.

É fácil reconhecer a relutância de Sócrates diante do mistério da vida e da morte como o único grande mistério que teria colocado em dificuldade qualquer filósofo digno desse nome.

Sobre a vida, médicos, naturalistas e físicos sabem aquilo que nossos sentidos observam e contemplam aquilo que nossa mente consegue abarcar, recordar, reter e transmitir. Mas sobre a morte, se excluirmos aquele processo que qualquer pessoa com uma boa doutrina é capaz de descrever, o que sabemos? O que se pode dizer além daquele trágico último suspiro a partir do qual se inicia a dissolução dos corpos?

Todos os filósofos do passado, com segurança, falaram de uma essência invisível e impalpável que, no momento em que a vida cessa naquele corpo, se separa da matéria; todos, de maneira unânime, declaram que a própria “forma” se dissolve com a matéria e que o que toma voo é essa essência misteriosa denominada alma.

Enquanto isso, “a natureza ama esconder-se”: mas o verdadeiro e profundo sentido dessa frase se oculta na palavra “natureza”, pois é evidente que, quando falamos de natureza, falamos de algo que não conhecemos. Amamos, admiramos e contemplamos a natureza, mas conhecê-la é outro assunto!

Por que a natureza, que em sua parte física é tão exuberante e mutável, ama esconder-se? Porque oculta um grande mistério. Mistério encerrado na “natureza transcendente” que, no movimento da ascensão, não se manifesta, mas se oculta. E o transcendente é aquele movimento que qualifica o mistério, de outro modo indefinido, o puro intelecto para o qual a alma tende em sua incessante ascensão rumo à imortalidade, impulsionada pela necessidade imperiosa de abandonar o que é transitório.

Ao mesmo tempo, porém, a “natureza oculta” é o templo mágico, o extraordinário alambique que destila todos os elixires da vida.

E a alma, essa parte misteriosa do homem que se desprende dos componentes materiais do ser, para onde é dirigida? É legítimo perguntar qual é o seu destino.

A essa pergunta, os grandes filósofos da Antiguidade, de Platão a Plotino, responderam de maneira unânime, assegurando-nos que a alma é imortal. Mas, quanto às provas dessa afirmação, observaram-se algumas hesitações e, no pior dos casos, exposições prolixas e descontínuas — sinal de que essa certeza, às vezes, vacila diante do grande rochedo da dúvida e da ignorância, sobretudo pelo fato de que ninguém, tendo retornado do Hades, jamais esteve em condição de contar o que viu e experimentou.

Sendo assim, é legítimo repetir que a viagem ao além não pode ser senão uma experiência e um evento exclusivamente pessoais: o de Caio, diferente do de Semprônio. E se, para a vida humana, existem parâmetros unanimemente reconhecidos e cientificamente comprovados, para a viagem ao Hades o único testemunho possível somos nós mesmos — e não é certo, aliás, é raríssimo, que cada homem possa ser semelhante a um Ulisses ou a um Eneias.

No melhor dos casos, poderá assemelhar-se ao poeta Dante, que nos deu uma imagem e uma grandiosa descrição lírica do além, inspirando-se numa iconografia religiosa. Contudo, a viagem ao Hades, no mundo antigo, não foi apenas fruto da inspiração poética de Homero, mas a expressão em poesia da profunda experiência dos Mistérios.

Mystes

Traduzido por ♃268