A Perfeita Smorfia de Rutilio Benincasa – Completada com os trabalhos cabalísticos de Pico della Mirandola, Giovanni Battista della Porta, do Velho Romeu, do legítimo Barbanera, do Conde de Cagliostro e do Castelluccio de Castelfranco, do Padovano e do Vêneto Passalacqua, do jesuíta Kircher e do Astrólogo Pisano.
Giuliano Kremmerz, A Cabala das Cabalas, Rebis, 2022
Já se passaram mais de dois séculos e meio desde que Giambattista della Porta foi publicado em francês, e as raras cópias que de tempos em tempos ainda se podem encontrar são vendidas por preços muito altos.
Giambattista della Porta nasceu em Nápoles em 1540 e ali morreu em 1615.
Foi criado por um de seus tios, um homem forte e instruído, que havia notado sua rara e precoce inteligência. Teve progressos surpreendentes nas línguas antigas, na literatura e na filosofia; desde os dez anos de idade compunha discursos notáveis em italiano, grego e latim.
Aos quinze anos falava latim com a mesma facilidade e elegância de sua língua materna.
O irmão Gian Vincenzo della Porta compartilhava seus gostos e seu ardor pelo estudo e, junto com ele, Giambattista desenvolveu cedo a paixão pela ciência.
Proveniente de uma família muito rica, pôde, para completar sua formação, viajar pela França, Itália, Espanha, Portugal, Alemanha e Inglaterra, visitando bibliotecas e estudiosos por toda parte, acumulando em museus, laboratórios e universidades de vários países um enorme acervo de conhecimentos, que depois justificaria a imensa reputação de que gozava entre seus contemporâneos.
Com extrema curiosidade, disse um de seus biógrafos, unia uma imaginação fervorosa, uma grande audácia mental e, como Cardano e Arnauld de Villeneuve, que tomou como mestres, uma declarada inclinação pelo maravilhoso, que o levava sempre a preferir o que fosse bizarro e singular, compartilhando da confiança de seus contemporâneos nas quimeras da astrologia judiciária.
Tudo o que era notável e curioso, fantástico e misterioso, atraía irresistivelmente sua mente, e ele buscava soluções concretas para problemas considerados insolúveis.
Sua erudição tornou-se logo tão grande que, antes de completar vinte anos, já havia composto os três primeiros livros de sua Magia Naturalis.
Mantinha uma correspondência regular com a maior parte dos estudiosos de sua época, escrita em um latim impecável e que remetia aos melhores modelos da Antiguidade.
Após vários anos de viagens e estudos no exterior, della Porta, ao retornar a Nápoles, participou ativamente da fundação da Academia dos Ociosos, onde, ao contrário do que sugeriam o nome e as regras da sociedade, eram admitidos apenas os mais laboriosos. Depois, no ano seguinte, fundou ele próprio a Academia dos Segredos, na qual só se era aceito com a condição de ter se destacado por alguma descoberta científica.
O nome dessa última sociedade sugere que os membros admitidos estivessem exclusivamente interessados nas artes mágicas. Não era o caso, mas o que mais contribuiu para alimentar essa opinião foi o fato de Giambattista della Porta, o membro mais ilustre da Academia, ter feito previsões, algumas das quais, diz-se, se realizaram. Assim que a notícia do cumprimento dessas profecias se espalhou por todo o país, uma multidão passou a afluir à sua casa pedindo-lhe conselhos sobre o futuro e sobre suas possibilidades de sucesso no mundo.
Após uma denúncia feita por alguns religiosos, que alegavam que della Porta havia declarado publicamente possuir o poder de comandar os elementos, de ler o futuro como em um livro aberto, de evocar os mortos e de dispor à vontade da vida de homens e animais, o estudioso foi convocado a Roma pelo papa Paulo V para justificar seu comportamento. Della Porta partiu para Roma e não teve dificuldade em demonstrar às autoridades eclesiásticas que fora gravemente caluniado por pessoas invejosas de sua vasta cultura. O Papa aceitou sua justificativa, mas não lhe permitiu reabrir sua Academia, que havia sido temporariamente fechada no momento de sua partida para a Cidade Eterna.
Durante sua estadia na Cidade Eterna, todos os estudiosos da Academia dos Linces o celebraram e quiseram tê-lo entre seus membros.
De volta a Nápoles, della Porta continuou a se dedicar com ardor aos seus estudos preferidos. Já há alguns anos reunia em sua casa um rico gabinete de curiosidades, que cientistas estrangeiros vinham admirar e de onde muitas vezes extraíam elementos para suas investigações científicas. Do mesmo modo, havia criado, no parque de sua casa de campo nos arredores de Nápoles, um verdadeiro horto botânico, onde cultivava principalmente árvores e plantas exóticas.
Disse-se dele, com razão, que “mais do que qualquer outro estudioso de seu tempo, difundiu o gosto pelas ciências naturais”, às quais prestou serviços importantes. Buscou frequentemente reduzir os fenômenos então inexplicáveis a leis gerais da natureza e, consequentemente, por vezes explicá-los com causas naturais. Denunciou as manobras dos alquimistas charlatães e conduziu suas investigações sobre numerosos temas da física. A ele devemos a descoberta da câmara escura, bem como um grande número de experimentos ópticos muito curiosos. Escreveu amplamente sobre espelhos planos, convexos e ustórios etc., e diversos autores lhe atribuem inclusive a primeira ideia dos telescópios, antes mesmo de Galileu.
Della Porta compartilhava as ideias de seus contemporâneos e suas pesquisas sobre astrologia, magia, o poder dos espíritos, e suas obras são repletas de ideias, revelações de segredos que, no entanto, não devem nos fazer esquecer os serviços muito concretos que prestou às ciências físicas.
Eis a maior parte de suas obras, em ordem cronológica de publicação:
- Magia naturalis em 20 livros (Nápoles, 1589, in-fólio), repleto de observações interessantes sobre uma infinidade de assuntos de botânica, física, etc., mas também cheio de puerilidades ridículas.
- De furtivis literarum notis (Nápoles, 1583, in-4°), tratado sobre escrita cifrada, com 180 diferentes procedimentos criptográficos e os meios para multiplicá-los indefinidamente.
- Phytognomonica (Nápoles, 1583, in-fólio), tratado sobre as propriedades das fisionomias e os meios de descobrir suas virtudes por analogia com as diversas partes do corpo dos animais.
- De humana physiognomonia libri IV (Nápoles, 1586, in-fólio), obra frequentemente reimpressa e traduzida ao francês em 1655.
Às observações feitas por Aristóteles, della Porta acrescentou muitas observações curiosas feitas por ele próprio; após notar a influência dos afetos da alma sobre o corpo, trata das diversas partes do corpo, indica as linhas que revelam o caráter dos indivíduos e tenta comparar as fisionomias humanas com as dos animais. - De refractione optica (Nápoles, 1593, in-4°), tratado sobre a refração e a anatomia do olho.
- Pneumaticorum libri III (Nápoles, 1601, in-4°), tratado sobre máquinas hidráulicas.
- De coelesti physiognomonia (Nápoles, 1601, in-4°), tratado em que, mesmo admitindo a influência dos astros, combate certos desvios da astrologia judiciária.
- Ars reminiscendi (Nápoles, 1602, in-4°), sobre os meios para ajudar e fortalecer a memória.
- De distillatione libri IX (Roma, 1603, in-4°), tratado em que se encontra o estado exato da química na época de della Porta.
- De aëris transmutatione (Nápoles, 1609, in-4°), tratado de meteorologia no qual se encontram muitos elementos válidos.
Perto do fim da vida, della Porta retornou ao cultivo das letras e compôs obras teatrais que foram encenadas com sucesso. Quase inacreditavelmente, esse estudioso, por assim dizer universal, ainda encontrou tempo para compor quatorze comédias em prosa, duas tragédias (Ulisses e George) e uma tragicomédia (Penélope).
As comédias foram reunidas e publicadas em Nápoles (1726) em 4 volumes in-12.
O que é a magia natural
Porfírio e Apuleio, que ocupam um lugar considerável entre os platônicos, afirmam que a magia tomou seu nome e nasceu na Pérsia, enquanto Suída considera que seu nome deriva dos Magos: de fato, o povo dessa nação chama de magos aqueles que os latinos honram com o nome de Sábios. Os gregos os chamavam de filósofos, os indianos de gimnosofistas, os egípcios os chamavam de sacerdotes, os cabalistas de profetas, os babilônios e os assírios, os caldeus e os habitantes da Gália lionense de druidas e bardos, que no passado também eram chamados de Seminotas; e, para dizê-lo brevemente, a magia recebeu diversos nomes nas diferentes nações.
Veremos que vários homens surgiram como estrelas flamejantes graças a essa ciência, que levaram a um alto grau de perfeição, como Zoroastro, filho de Oromasdes entre os persas, Numa Pompílio entre os romanos, Tespion entre os indianos, Hermes entre os egípcios, Buda entre os babilônios e Abaris entre os hiperbóreos.
A magia se divide em duas partes: uma infame, feita de encantamentos e de espíritos impuros e nascida de uma curiosidade maligna, que os gregos mais eruditos chamam de Goetia ou Teurgia; essa é a magia que dá origem a feitiços e fantasmas ou ilusões, que desaparecem subitamente, sem deixar o menor vestígio.
A outra parte é a magia natural, que todos veneram ou honram, pois não há nada mais elevado ou agradável para os amantes das boas letras, os quais consideram que ela nada mais é do que filosofia natural, ou a ciência suprema. Essa magia, dotada de um poder considerável, é rica em mistérios ocultos e revela as coisas que estão escondidas na natureza, com suas qualidades e propriedades: é o cume de toda a filosofia. Ensina também que, com a aplicação apropriada, opera aquilo que o mundo considera milagres, que superam toda admiração, assim como todas as faculdades racionais de compreensão.
Por esse motivo, floresceu sobretudo na Índia e na Etiópia, lugares onde havia muitos animais, ervas e pedras, e muitas outras coisas que se prestavam a esse propósito. Por isso digo àqueles que vão até lá para admirar essas maravilhas: não pensem que os efeitos da magia natural sejam outra coisa senão obras da natureza. A arte é escrava da natureza e se coloca diligentemente a seu serviço.
Assim como na agricultura a própria natureza dá origem às ervas, às plantas e ao trigo, a arte os prepara. Por isso Plotino chama justamente o mago de “ministro da natureza” e não de “operário ou artesão”. No próximo capítulo mostraremos qual deve ser seu papel e seu conhecimento.
Fonte: A MAGIA NATURAL ou OS SEGREDOS E MILAGRES DA NATUREZA
Tradução do francês de Roberto Sestito


