As virtudes do homem comum são diferentes daquelas de quem se eleva à contemplação, sendo por isso denominado contemplativo, daquelas de quem já é um perfeito contemplativo e que agora contempla, e, por fim, daquelas da Inteligência, enquanto Inteligência separada da Alma.
(As virtudes) políticas consistem na moderação das paixões, que se realiza seguindo-se e conformando-se nas ações à lógica do dever; são chamadas políticas porque visam à comunhão com o próximo, de modo que o conviver e estar em comunidade não resulte prejudicial. A prudência refere-se à alma racional, a fortaleza à alma irascível, a temperança consiste na harmonia do concupiscível com o racional, e a justiça, finalmente, consiste em atribuir a cada uma delas o devido papel, tanto no comandar quanto no obedecer.
As virtudes do contemplativo que se prepara para a contemplação consistem em abandonar as coisas deste mundo terreno: essas virtudes são chamadas catárticas, pois é evidente que consistem na abstinência das ações e das paixões do corpo. São estas as virtudes da alma que se eleva ao que é o verdadeiro Ser, enquanto as virtudes políticas aperfeiçoam o homem mortal — embora as virtudes políticas preparem para as catárticas: é, de fato, necessário estar previamente adornado por aquelas para abster-se de realizar qualquer ação corporal. Nas virtudes catárticas, portanto, a prudência consiste em não submeter-se às opiniões do corpo, mas em agir por si só, aperfeiçoando-se através do puro pensamento; a temperança consiste em não ceder às mesmas paixões; a fortaleza consiste em não temer o desprendimento do corpo, como se fosse uma queda no vazio (no nada) e no não-ser; e, finalmente, a justiça consiste no domínio da razão e do intelecto, sem que nada lhes se oponha. Note-se, pois, que a inclinação para as virtudes políticas consiste na moderação das paixões, cujo fim é viver como homem segundo a natureza, enquanto a inclinação para as virtudes contemplativas consiste na impassibilidade, cujo fim é a assimilação a Deus.
A catarse diz respeito tanto a algo que precisa ser purificado quanto a algo que já está purificado, de modo que as virtudes catárticas devem ser consideradas segundo ambos os sentidos de purificação: elas purificam a alma e, em seguida, se aplicam a ela quando já está purificada – pois o objetivo de purificar é, de fato, ser purificado. E como purificar e ser purificado consistem em eliminar o que é estranho, o bem fica claramente distinto daquilo que purifica; consequentemente, a catarse é suficiente se aquilo que se purifica já era bom antes da impureza.
De qualquer forma, a catarse será suficiente, mas (visto que) o que permanecerá será o bem, não a própria catarse; a natureza da alma não era o bem em si, mas a forma do bem, a capacidade de participar do bem: caso contrário, ela não teria nascido no mal. Para ela, portanto, o bem consiste em unir-se àquele que a gerou, e o mal em unir-se ao que é inferior.
Por outro lado, o mal é duplo: unir-se ao que é inferior e, além disso, entregando-se de modo desenfreado às paixões. As virtudes políticas libertam a alma de um único mal e por isso são virtudes dignas de respeito, mas as virtudes catárticas são superiores, pois libertam a alma do mal enquanto tal.
Há, portanto, um terceiro gênero de virtudes, após as catárticas e as políticas, a saber, aquelas da Alma que age intelectualmente: a sabedoria e a prudência consistem na contemplação do que está na Inteligência; a justiça consiste em atribuir a cada coisa seu devido papel, em conformidade com a Inteligência, e em agir em direção à Inteligência; a temperança consiste na conversão para o interior, em direção à Inteligência; e a fortaleza consiste na impassibilidade, por assimilação àquilo a que se volta, que é impassível. Essas virtudes pressupõem-se mutuamente, assim como as demais.
A quarta forma é aquela das virtudes paradigmáticas, que estão na Inteligência, sendo superiores às da Alma e servindo-lhe de paradigma: as virtudes da Alma são imagens destas; pois a Inteligência é aquilo em que tudo está simultaneamente como paradigmas. A intellection é puro saber, o intelecto que conhece é a sabedoria; ele mesmo voltado para si é a temperança; exercer sua própria atividade é a justiça; e sua própria identidade, permanecer puro graças ao derramar de potência, é a fortaleza.
Resultam, portanto, quatro os gêneros das virtudes: as primeiras são da Inteligência, as paradigmáticas, e coincidem com sua essência; depois vêm as virtudes da Alma que já está voltada para a Inteligência e plena dela; em seguida, as virtudes da alma humana em via de purificação, que se purifica do corpo e das paixões irracionais; e, por fim, as virtudes da alma humana que governa o homem, pois impõe limites ao irracional e modera as paixões. E quem possui as virtudes mais elevadas possui necessariamente também as mais baixas, mas não vice-versa. Aliás, quem detém as virtudes superiores jamais se comportará apenas segundo as inferiores por possuí-las, mas sim conforme as circunstâncias da natureza gerada. De fato, os fins são diferentes, como já se disse, conforme os gêneros. O fim das virtudes políticas é, pois, impor um limite às paixões nas atividades que dizem respeito à natureza; o das virtudes catárticas é separar-se completamente das paixões já moderadas; o das virtudes da Alma que age intelectualmente é alcançar a contemplação já liberta das paixões; e o das virtudes que não agem em direção à Inteligência, mas que já coincidem com sua própria essência — é o agir puro. Assim, é homem virtuoso quem age segundo as virtudes práticas; é homem divino, ou demônio bom, quem age segundo as virtudes catárticas; é deus quem age segundo somente as virtudes que miram à Inteligência; e é o Pai dos deuses quem age segundo as virtudes paradigmáticas.
Da nossa parte, portanto, devemos atentar sobretudo para as virtudes catárticas, considerando que é possível alcançá-las nesta vida e que este é o caminho para as virtudes superiores. Por isso, é preciso avaliar até onde e em que medida a catarse se pode estender: ela é, de fato, um afastamento do corpo e do movimento passional do irracional. Cabe, então, explanar como e até que ponto isso se realiza.
Em primeiro lugar, base e fundamento da catarse é saber que se é uma alma vinculada a algo estranho e de outra natureza. Em segundo lugar, partindo dessa convicção, é preciso recolher-se em si mesmo, afastando-se do corpo e dos lugares, colocando-se num estado completamente impassível em relação a eles. De fato, aquele que age frequentemente segundo a sensação, mesmo o fazendo sem forte inclinação e sem usufruir do prazer, ainda assim distrai-se por estar ligado ao corpo pela sensação, pois experimenta prazeres ou dores a partir dos sensíveis com imediata participação emocional; é sobretudo dessa disposição que é oportuno purificá-lo.
Isso se consegue se se aceitarem apenas os prazeres necessários e as sensações a título de remédios ou alívio das dores, de modo que não sejam um entrave. É preciso eliminar as dores e, se não for possível, suportá-las — quem sabe atenuando-as — sem se envolver nelas. É necessário extirpar até onde for possível, quiçá totalmente, o ânimo irascível. Caso contrário, certamente não se confundirá a livre escolha, mas o impulso instintivo terá outra natureza e, ainda assim, será fraco e breve; quanto ao medo, deve ser totalmente suprimido — pois não se deve ter medo de nada (ainda que possa haver um impulso inicial) —; pode-se, entretanto, servir da ira e do medo como advertências.
Deve arrancar-se pela raiz a concupiscência daquilo que é impuro. No que tange a comer e a beber, deve-se ater ao estritamente necessário; quanto aos prazeres amorosos, àquilo que é natural, sem impulsos instintivos — no máximo, durante o sono, haverá uma fantasia passageira. Na prática, a alma racional do homem purificado deve estar pura em si de toda paixão. Deve desejar que aquela parte agitada pelas paixões corporais se mova sem participação ou envolvimento emocionais, de modo que a excitação cesse imediatamente ao se aproximar do elemento racional.
Se a catarse se completa, não haverá mais luta interior, bastando a presença da razão, à qual a parte inferior ficará subordinada; por consequência, a própria parte inferior não suportará ser totalmente agitada e lamentará sua própria fraqueza, pois não permaneceu impassível diante da presença de seu senhor. De qualquer modo, trata-se ainda apenas de paixões moderadas que tendem à impassibilidade; só quando estiver completamente purificada das paixões é que a impassibilidade surgirá, pois a paixão ganha corpo quando a razão a torna fácil, em virtude da forte inclinação.
Porfírio, Sentenze Sugli Intellegibili. Prefazione, introduzione, traduzione e apparati di Giuseppe Girgenti, Rusconi Editore. Milano, 1996.
Por Mystes
Traduzido por ♃268


