Moisés e o bezerro de ouro: de “tenente” a “substituto”

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Crise existencial, esvaziamento de funções dos intermediários do sagrado, perda de sentido, dramática renúncia à liberdade duramente conquistada, a solidão dos verdadeiros líderes… O drama da modernidade em sua acentuada fratura entre o corpo e espírito,
“A era das doenças” surge claramente nas linhas luminosas de Michel Odoul, linhas a serem lidas como diagnóstico e um verdadeiro fármaco para a humanidade destes tempos sombrios.

Cabe-nos a superação do imediatismo e a criação das condições para uma vida mais dramaticamente significativa.

Por FH

A natureza abomina o vácuo, e a natureza humana não é diferente. A falta de sentido da vida moderna, o medo do nada e o estado de sobrevivência levam os seres a procurar paliativos, substitutos.

Durante um debate sobre o excessivo mediatismo em torno da morte do Papa João Paulo II, o filósofo alemão Alain Finkielkraut explicou muito corretamente que, em todos os níveis da chamada sociedade moderna, perdemos o sentido, ou melhor, o senso comum da vida. O funeral de João Paulo II deu origem a um fenômeno mediático e a uma exacerbação do sentimento religioso que é bastante desconcertante. Alain Finkielkraut propôs uma explicação para este fenômeno, formulando a hipótese de as nossas sociedades terem perdido o sentido básico da “representação” ou do “representante”, em todos os domínios. Tradicionalmente, o representante (sacerdote, xamã, médium, senhor, delegado, etc.) é visto como uma espécie de interface entre os indivíduos e as dimensões de difícil acesso para eles, por serem sutis, elevadas, complexas ou remotas. O filósofo explicou que esses representantes desempenham hoje uma função completamente diferente no inconsciente coletivo. Chamados “tenentes” por Finkielkraut (o tenente era aquele que servia de intermediário entre o comando e as tropas), perderam a sua dimensão de intermediários, porque aquilo que se pensava que representavam (a Igreja no caso de João Paulo II, mas infelizmente também nas instituições em geral) foi esvaziado do seu significado, do seu conteúdo. Foi esse vazio que afastou os indivíduos de suas instituições. As pessoas projetaram assim as suas expectativas nos representantes, esquecendo o significado de “tenente” (aquele que ocupa uma posição intermediária) e preferindo o de “substituto”. Trata-se, no entanto, de uma substituição grosseira, uma espécie de fac-símile, desprovido de significado e apenas portador de aparências.

Este conceito magistral de “tenente” transformado em “substituto” lança uma luz fria sobre o que está acontecendo. A negação do invisível, dimensão tão difícil de aceitar por uma cultura excessivamente sensorial e materialista, leva à necessidade de fabricar um “visível”. O papa falecido passou assim, no coração dos crentes católicos, de “tenente” de Deus a “substituto”.

Se foi tão longe que, mesmo antes de o enterrarem, muitos pediram a sua beatificação. Isso era inconcebível até mesmo para a Igreja, que no entanto sucumbiu ao canto das sereias e concordou em iniciar um processo acelerado. Infelizmente, a identificação, a projeção, conforme dizia Jung, o mensageiro, tomou o lugar da mensagem. O ídolo tornou-se o ícone.

A nossa tradição judaico-cristã, que já o sabia, tentou transmitir-nos isso, através da história de Moisés, para nos avisar. O que essa história nos diz? Não tenho a pretensão de dissecar o assunto ou de me lançar em discussões teológicas. No entanto, uma leitura atenta dos nossos textos tradicionais, incluindo a Gênese, e no caso de Moisés o Êxodo, pode nos auxiliar a compreender o que acontece hoje, ou seja, aquilo a que chamo “síndrome do ídolo”.

Vendo que seu povo sofria sob o jugo do Faraó, Deus disse a Moisés que fosse buscar esse povo e o conduzisse à Terra Prometida (talvez um símbolo do regresso a si próprio, à fonte, às origens?). Não repetirei todos os acontecimentos, cada um deles com um simbolismo muito forte, que permitiram a Moisés sair do Egito com seu povo (as dez pragas, o milagre do mar, etc.).

Após ter deixado as margens do Mar Vermelho, Moisés e o seu povo encontram em seu caminho três desertos, que tem de atravessar. Essas travessias constituíam uma oportunidade para pôr o povo à prova, e cada uma delas tem um significado simbólico (não é verdade que as travessias do deserto são bem conhecidas por todos aqueles que procuram a sua “terra prometida”, trabalhando sobre si próprios para abandonar a escravidão dos sentidos?).

Ao atravessar o primeiro deserto, o de Sur, o povo depara-se com a sede. A única água que encontraram, nas proximidades de Mara (que em hebraico significa “amargo”, e o sabor amargo em energética está associado ao coração, ao fogo, às emoções), não era boa para beber (a água simboliza, dentre outras coisas, o mundo emocional e inconsciente. As emoções negativas podem “envenenar”?). O povo “murmurou contra Moisés” (protestou), manifestando desde este primeiro obstáculo a sua dificuldade em aceitar as provas, em “pagar” o preço da liberdade. Mostra também que ainda não está preparado para aceitar a “graça” (confiança na vida?) na sua alma. Moisés intervém, tocando a água com uma vara e tornando-a doce com a ajuda de Deus (o desaparecimento do sofrimento emotivo ocorre através da abertura da mente, da sua “purificação” através do acesso à dimensão invisível, espiritual). Perante esta primeira rebelião, Moisés estabelece as primeiras regras a serem respeitadas pelo povo de Deus, os primeiros deveres (o sentido da responsabilidade, o preço das coisas, o preço das ações?), que lhe permitem progredir sem sofrimento (sem sofrer as pragas do Egito). O povo consegue saciar a sua sede e retoma a sua viagem, chegando a Elim, onde encontra doze (!) fontes e pode acampar à beira da água.

Moisés e o seu povo retomam então a sua viagem e encontram rapidamente um segundo deserto, o de Sin. A travessia deste novo deserto (uma nova prova) suscita as “murmurações” dos antigos escravos que, desta vez, protestam contra Moisés não por causa da sede, mas por causa da fome (uma vez que as suas emoções foram saciadas, voltam-se para a matéria e para a satisfação corporal). Chegaram a lamentar o tempo “abençoado” em que estavam no Egito, “junto à panela de carne, comendo pão até se fartarem” (estavam assim prontos a voltar a ser escravos, a perder a liberdade para obter segurança!). Deus fez chover todos os dias o maná celeste e as codornizes para alimentar o seu povo, pedindo-lhes que recolham apenas “o que cada um puder comer”, nem mais nem menos (trata-se de um novo teste de confiança na vida e na sua capacidade de “prover tudo”). Todos os que tinham recolhido mais para armazenar, não puderam conservar os alimentos, porque “nele se geraram vermes e podridão” (a cobiça, a necessidade de possuir, o medo de não ter o suficiente geram podridão por todos os lados). Foi a primeira cólera de Moisés contra seu povo, e “tudo voltou à ordem” (símbolo, infelizmente, da necessidade da autoridade se manifestar pela força).

Deixam então o deserto de Sin para chegarem, após novas vicissitudes, ao deserto do Sinai. Moisés acampa seu povo no sopé do monte Sinai, ao cume do qual sobe (tudo o que é divino é também elevado e, para se elevar, cada um deve “subir”). Chegado ao cume, Moisés recebe de Deus as Tábuas da Lei (que simbolizam os deveres de cada ser humano perante a vida, os fundamentos da moral social, o sentido das virtudes que o “elevam”). Este contato com Deus foi longo, porque foi muito além da transmissão dos Dez Mandamentos.

O fato é que esta espera (ausência, falta de informação, falta de ação, nova prova de confiança) foi extremamente longa para o povo, que aguardava no sopé da montanha. A ausência do guia, do chefe, do “tenente” de Deus, é insuportável, e o povo pede a Aarão (que havia acompanhado Moisés desde o início) que lhe arranjasse um “substituto”. Aarão cedeu com incrível facilidade (o que indica como é rara a verdadeira autoridade e como está destinada à solidão) e a todos disse que tirassem “os pendentes de ouro que as vossas mulheres e filhas tem nas orelhas” e os

trouxessem (o que significa que, para obter o bezerro de ouro, cada um deve renunciar à única riqueza que possui e que contribui para “embelezá-lo”; para o povo escravizado, era a liberdade que acabara de lhe ser oferecida). Fez um bezerro de ouro que o povo adorou como seu Deus. Uma vez que o “tenente” (Moisés) tinha desaparecido (aos seus olhos), o povo o substituiu por um “substituto” (o bezerro de ouro), obtido através da renúncia à sua única riqueza (a liberdade). A decepção de Moisés foi grande. “Então a ira de Moisés acendeu-se: lançou as tábuas e quebrou-as ao pé da montanha”.

Que lições podemos aprender com esta passagem do Êxodo? Moisés lutou com força e determinação para libertar o seu povo da escravidão. Conseguiu-a com a ajuda do invisível (Deus). A sua batalha foi vitoriosa. No entanto, a conquista da liberdade e da sua parte da humanidade conduz sempre aquele que a empreende a uma grande solidão e àquele que o segue na travessia do deserto.

Moisés experimentou a solidão e o seu povo experimentou com ela a travessia do deserto. No entanto, a provação foi demasiada dura para estes escravos que, pouco a pouco, acabam por se convencer de que o Egito não era assim tão mau. Moisés apercebeu-se bem da tensão existente e sentiu a necessidade de dar ao seu povo um “quadro de referência”. No entanto, assim que ele vira as costas para ir, como “tenente” de Deus, buscar as Tábuas da Lei, o seu povo ergue um “substituto”, o bezerro de ouro. Tendo atravessado o deserto (o vazio, a falta de pontos de referência), este ídolo substituto era mais fácil de adorar do que um Deus remoto ou imaterial, transcendente. O ídolo tranquilizava e facilitava as coisas, porque colocava a lei “fora” e moldava a autoridade. As Tábuas da Lei, símbolo das regras de comportamento interior, eram mais difíceis, porque eram abstratas e implicavam um esforço por parte de uma autoridade pessoal e individual. Chamo a esta renúncia ao esforço e à responsabilidade individual “síndrome do ídolo”. Trata-se, de fato, de uma síndrome real; a impostura do “substituto” em relação ao “tenente” é o que constitui a origem da fratura entre a alma e o corpo e, consequentemente, da doença.

Hoje, vivemos esta síndrome do ídolo de várias maneiras e a nossa consciência adoeceu com ela. A questão é que é precisamente esta consciência que faz vibrar o nosso corpo em uníssono. Os antigos compreenderam certamente esta ligação profunda, razão pela qual desenvolveram rituais e protocolos destinados a pôr ordem na nossa consciência nascida do caos interior. Infelizmente, as desarmonias criadas pelo nosso estilo de vida conduziram-nos a esse caos para o qual os antigos tanto tentaram trazer ordem. Como resultado, o corpo não tem outra saída senão responder com o apagamento, o caos físico por excelência. É a única alternativa que resta à vida interior para fazer parte, de acordo com os parâmetros do pensamento corrupto, do mundo fenomenal, corporificado e carnal. A ausência de sentido e de objetivo produz o caos da alma, a ausência de regras e de comportamentos leva à manifestação desse caos na realidade dos nossos corpos.

As consequências são numerosas. À maneira do povo hebreu, que Moisés tinha libertado da escravidão, os povos modernos deixaram-se seduzir pelo sonho do progresso material, acreditando que este tornaria tudo mais fácil e devido. Já não aceitando o sentido da busca e da conquista, não se apercebem de que voltaram a ser escravos. Perderam de vista o sentido do “sagrado” para se tranquilizarem no “mágico”. A vida já não deve ser complexa e digna de respeito, deve consistir em receitas, “resumos” e imediatismo. O sentido do abstrato, daquilo que evoca a alma e a transcendência, deu lugar ao sentido do virtual e das sensações que provoca. O instrumento passou a ser o objetivo e o meio passou a ser o fim. Regressamos à era

do bezerro de ouro. Nessa dicotomia entre corpo e espírito, criam-se as condições necessárias para a doença. Esta é uma das primeiras consequências da “síndrome do ídolo”.

Excerto de: ODOUL, Michel. Um corpo per curarlo, um’anima per guarire. Edizione Il punto d”Incontro.