A Porta Alquímica-Hermética da Piazza Vittorio em Roma

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A estada romana de Cristina da Suécia divide-se em três períodos. A primeira entrada em Roma dá-se oficialmente em 23 de dezembro de 1655 pela Porta del Popolo, sob o arco do triunfo montado para a ocasião por Bernini, mas esse primeiro período é breve, pois Cristina parte em 19 de julho de 1656. O segundo momento, mais extenso, vai de junho de 1662 a maio de 1666. Por fim, o terceiro período abrange de 1668 até sua morte, ocorrida em abril de 1689.

A tese de Bildt — segundo a qual Cristina não teria se dedicado de fato à alquimia antes de 1662, ou seja, antes do segundo soggiorno romano — parece razoável, considerando a curta duração do primeiro período. É preciso lembrar, entretanto, que o interesse de Cristina pelos textos alquímicos já era antigo e fazia parte de uma curiosidade mais ampla pela cultura clássica e, em especial, pela prisca philosophia. Esse interesse, estimulado sobretudo por suas relações pessoais com Isaac Vossius, gerou atrito com Descartes, que se queixou a Elisabeta, em carta de 9 de outubro de 1649, afirmando que Cristina “andava catando livros antigos por toda parte”. Cristina, por sua vez, não via novidade na filosofia cartesiana, atribuindo-lhe originalidade sobretudo por seu método de geometria analítica.

Na formação intelectual de Cristina, como demonstrou Susanna Àkermann, tiveram lugar também os principais textos da literatura moderna — os quais, por sua vez, dedicam amplo espaço à literatura clássica e ao ceticismo antigo, em particular o de Sexto Empírico. A presença de obras céticas ao lado de obras alquímicas — isto é, de escritos não dogmáticos ou antidogmáticos convivendo com textos dogmáticos que remetem a uma sabedoria ancestral — pode parecer contraditória, mas deve-se ter em mente que o mesmo fenômeno ocorre em autores como Cornélio Agrippa de Nettesheim, autor simultâneo de De Occulta Philosophia e de De Incertitudine et Vanitate Scientiarum.

De fato, no século XVII, confrontam-se duas concepções distintas de ciência. A primeira, a de Descartes, busca regras gerais e descarta sistematicamente qualquer exceção.

A segunda, a de Agrippa ou de Campanella, baseia-se exclusivamente nas exceções e nos casos particulares, e é fácil entender, desse ponto de vista, como ela pode formar uma aliança com o ceticismo, que utiliza sistematicamente as exceções e a literatura sobre os mirabilia para combater o dogmatismo aristotélico-escolástico-cristão. No embate entre Descartes e Cristina da Suécia, portanto, emerge algo emblemático, que culminará no moderno problema da chamada demarcação entre ciência e metafísica.

Em segundo lugar, é preciso lembrar que a presença do marquês Massimiliano Palombara no círculo da rainha data já de 1655. Tudo indica, assim, que Cristina lhe tenha confiado, desde o primeiro soggiorno romano, tarefas de caráter prático, cuja expressão simbólica mais vistosa se verá na Porta Alquímica de 1680, tema deste encontro de estudos. Os interesses diretos de Cristina pela alquimia manifestam-se, porém, de modo visível apenas durante o segundo período em Roma.

Em 1665, a rainha convoca repetidamente Ole Borch no Palazzo Riario para aprender diretamente com ele os segredos alquímicos. Em 1668, Borch publica o tratado De ortu et progressu chemiae, que remonta a origem da própria química ao mítico Hermes Trismegisto e, portanto, à antiga sabedoria egípcia — tese retomada no Oedipus chimicus de Becher, em escritos de John Dee e na maioria dos autores alquímicos. A solidez dessa ideia é reforçada pelas pesquisas de Festugière, especialmente o volume I de Révélation, que identifica as fontes herméticas de Zósimo.

Ainda em 1653, Cristina teria fundado a Ordem Hermética do Amaranto (provável derivação da Golden Dawn), e entre suas leituras constam os Mistérios Egípcios de Giamblico. Em 1666, ela mantêm contato com o químico paracelsiano Johann Rudolph Glauber, que identificava os três princípios da química no sal, no enxofre e no mercúrio, considerando o fogo — isto é, o sol — e o sal como duas divindades. De particular interesse para nós é a figura na página 13 da edição de 1660 do Arca Thesaurus Opulentia: um quadrado inscrito num círculo, com a inscrição In Sole et Sale Omnia, cuja geometria reaparece também na Porta Alquímica.

Por fim, entre os papéis de Cristina da Suécia encontra-se um manuscrito intitulado Il laboratorio filosofico – Paradossi Chimici, datável por volta de 1674, que parece ser uma cópia anotada de um manual alquímico de autoria desconhecida. Assim, o interesse de Cristina pela alquimia revela-se constante e foi plenamente realizado naquele último período em Roma, quando, livre das preocupações políticas que haviam-na levado a peregrinar pela Europa, ela pôde dedicar-se de corpo e alma a essa atividade tão afim à sua natureza.

A construção da Porta Mágica, ou Porta Alquímica, data provavelmente de 1680. Hoje ela se encontra no interior do jardim da Piazza Vittorio, em frente aos chamados “Trofei di Mario”, na direção nordeste, ao longo do antigo perímetro da Villa Palombara. Foi ali colocada por volta de 1888, sendo a única parte remanescente da demolição da villa realizada em 1873, após as obras de construção do novo bairro do Esquilino.

Postas de lado as lendas acerca de sua origem — a mais famosa é a de que a porta comemoraria um experimento alquímico no qual um misterioso peregrino, hóspede da própria villa, teria produzido ouro de fato —, sabe-se hoje que tanto o portal quanto as inscrições são inteiramente obra do Marquês Palombara. Sentindo-se próximo da morte, ocorrida naquele mesmo ano de 1680, ele quis erguê-la como um espécie de testamentum spirituale visível.

O que permanece a esclarecer é, porém, o papel que Cristina da Suécia pode ter exercido direta ou indiretamente em sua concepção e construção. A solução desse enigma pode ser facilitada ao lembrar que a rainha, dada a sua estreita relação pessoal com o Marquês — que se manteve mesmo após a morte dele, em favor de sua família, expressamente incluída no testamento de Palombara sob a generosidade de Cristina —, não poderia deixar de conhecer sua intenção de legar um símbolo tangível do interesse mútuo pela ciência alquímica.

Antes de prosseguir com um exame detalhado dos símbolos e inscrições da Porta Alquímica, gostaria de chamar a atenção para o simbolismo inerente à própria porta. O símbolo da porta é muito antigo. Para não falar de outras ocorrências, ele aparece na mitologia dos mistérios de Mitra — em particular num dos mithraeos de Ostia — e em um trecho de Celso (VI 22), ao qual voltarei em breve. Surge também no Picatrix (obra amplamente difundida, da qual Cristina possuía até um manuscrito), na descrição da mítica cidade de Adocentyn, a cidade das quatro portas (IV 3), redescoberta pelos Rosacruzes.

Em tempos mais próximos ao nosso objeto de estudo, esse símbolo está presente no Atalanta Fugiens de Michael Maier — texto ao qual, como veremos, tanto as inscrições da porta quanto as obras literárias de Palombara fazem referências implícitas ou explícitas. O emblema nº XXVII do Atalanta Fugiens mostra, de fato, uma porta que conduz ao rosário filosófico (Rosarium Philosophicum): para abri-la é preciso uma chave, mas nem todos são dignos de possuí-la. Não por acaso se fala em “rosário”, já que a obra é reconhecida como um importante documento rosacruz, e ainda voltaremos à relação entre Cristina, Palombara e os Rosacruzes.

Passarei agora ao exame das estruturas da porta.

A arquitrave é encimada por um friso reproduzido integralmente no frontispício do Aureum Seculum Redivivum de Henricus Madathanus (1621 — mais uma obra ligada aos rosacruzes). O friso de Palombara e o frontispício do livro de Madathanus trazem exatamente as mesmas inscrições: TRIA SUNT MIRABILIA DEUS ET HOMO MATER ET VIRGO TRINUS ET UNUS no círculo externo e CENTRUM IN TRIGONO CENTRI no círculo interno.

O círculo interno é encimado por uma cruz, remetendo imediatamente à cruz que também figura entre os símbolos mágicos do Sol em De occulta philosophia de Agrippa (II 51). Esse círculo, coroado pela cruz, está sobreposto ao escudo de Davi — ou selo de Salomão — oficialmente adotado em Praga como signo cabalístico já em 1354 e difundido nos séculos XVII e XVIII pela Morávia, na Áustria, na Alemanha meridional e na Holanda.

Ambos os símbolos estão por dentro do círculo maior, que no frontispício de Madathanus, porém, aparece inscrito num quadrado — elemento que desapareceu no friso de Palombara. Além de remeter explicitamente ao texto de Madathanus, de onde são extraídos, o friso e essa segunda inscrição fazem referência ainda ao emblema XXI do Atalanta Fugiens.

A arquitrave compõe-se de duas inscrições: uma em hebraico, רוּחַ אֱלֹהִים (Ruach Elohim), “Espírito do Senhor” [Elohim estando no plural], o que reafirma um interesse pela espiritualidade judaica já sugerido pela presença do selo de Salomão. Os vínculos de Cristina da Suécia com o judaísmo são bem conhecidos e documentados por Àkermann no capítulo X de seu livro de 1991. Esses laços eram tanto pessoais quanto mediados por Vossius, sempre incumbido de obter manuscritos originais. Cristina, que sabia hebraico, interveio em 1686 em defesa dos judeus do gueto de Roma e havia constantemente incentivado programas de pacificação entre as duas fés. Naturalmente, seus interesses culturais privilegiavam o misticismo judaico e a Cabala.

A segunda inscrição, colocada abaixo da inscrição em hebraico, diz: HORTI MAGICI INGRESSUM HESPERIUS CUSTODIT DRACO ET SINE ALCIDE COLCHICAS DELICIAS NON GUSTASSET IASON (o dragão hesperio guarda o ingresso do jardim mágico e, sem Alcide [Hércules], Jasão não teria saboreado as delícias da Cólquida).

A referência ao velo de ouro aparecia em outra epígrafe, hoje perdida, situada no portão da Villa Palombara: VILLAE IANUAM TRANANDO RECLUDENS IASON OBTINET LOCUPLES VELLUS MEDEAE (atravessando o portão da villa, o descobridor Jasão obtém o rico velo de Medeia).

As iniciais das nove palavras formavam o acróstico VITRIOLUM, que significa Visita Interiora Terrae Rettificando Invenies Occultum Lapidem Veram Medicinam. Como sugeriu Mino Gabriele, trata-se de temas recorrentes nos textos paracelsianos do século XVI e, posteriormente, na literatura dos rosacruzes. Além disso, o tema do velo de ouro — difundido na literatura alquímica por razões óbvias — também aparece no Atalanta fugiens nos comentários aos emblemas I, XIV e XXV.

Mas ele está presente sobretudo na Bugia, a coletânea de versos alquímicos do Marquês Palombara dirigidos a Cristina da Suécia. Na interpretação de Gabriele, o tema do velo de ouro tem um significado mais amplo do que o estritamente alquímico — embora não incompatível com ele — e alude ao veículo da alma, a veste resplendorosa mencionada também no Hino da Pérola, perdida após a descida da alma ao corpo e recuperada depois da libertação deste e da ascensão de volta ao reino do Pai.

Os Umbrais e a Soleira

Nos umbrais e na soleira estão impressos os símbolos tradicionais dos sete planetas, cada um acompanhado por uma inscrição. A ordem de leitura que sugiro parte do pressuposto de que Palombara, talvez inspirado pela própria Cristina, adotou a ordenação planetária chamada “egípcia”, o que confirmaria a natureza hermética do conjunto (a única diferença notável é a troca de lugar entre Vênus e Mercúrio).

Começando pela soleira e subindo pelos umbrais (lendo da direita para a esquerda), encontramos: Lua, Sol, Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno. No entanto, esse percurso não corresponde ao trajeto alquímico sugerido pelas correspondências entre planetas e metais: trata-se, na verdade, do percurso alquímico clássico invertido, pois partiríamos da prata e do ouro já adquiridos e subiríamos de volta na escala dos metais dos quais derivam, chegando por fim ao chumbo — isto é, ao negro, a matéria-prima.

Planetas e Metais

Acho útil demorar-nos um pouco nas correspondências entre metais e planetas. É preciso esclarecer que elas variam conforme a fonte. Celso, autor médio-platônico do século II, fornece a seguinte tabela de correspondências, que ele vincula à “escada das sete portas”, símbolo do percurso iniciático nos mistérios de Mitra. Segundo sua descrição (VI 22), teríamos a sequência:

  • Saturno – Chumbo
  • Vênus – Estanho
  • Júpiter – Bronze
  • Mercúrio – Ferro
  • Marte – mistura de metais
  • Lua – Prata
  • Sol – Ouro

Essa ordem planetária suscitou inúmeras dúvidas, pois não se coaduna com nenhuma das duas sequências clássicas conhecidas (a egípcia e a caldaica), tampouco com a sequência mitraica registrada nos mitreus de Santa Prisca em Roma e de Felicissimo em Ostia. Trata-se, pura e simplesmente, da nossa semana — mas, na versão de Celso, não é “planetária”, já que a semana oficialmente planetária deriva, por meio de um cálculo complexo, do sistema caldaico, com o Sol no centro (Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter, Saturno).

Agrippa de Nettesheim, em De occulta philosophia (I 23–28), apresenta uma tabela diferente:

  • Sol – Ouro
  • Lua – Prata
  • Saturno – Chumbo e Ouro
  • Júpiter – Estanho (Prata e Ouro)
  • Marte – Cobre
  • Vênus – Prata e Cobre

As correspondências sugeridas por Mino Gabriele coincidem em parte com as de Agrippa e são:

  • Saturno – Chumbo
  • Júpiter – Cobre
  • Marte – Ferro
  • Vênus – Cobre
  • Mercúrio – Mercúrio
  • Sol – Ouro
  • Lua – Prata.

Uma leitura em chave alquímica da porta requer, portanto, que se comece de cima. Contudo, é também possível uma leitura filosófica da porta, que, nesse caso, aludiria à jornada de ascensão da alma pelas esferas planetárias. De fato, na literatura hermética existem ambos os percursos. Nos fragmentos alquímicos atribuídos a Hermes Trismegisto temos o clássico avanço do Negro do Chumbo de Saturno — a matéria-prima — ao Cobre, Ferro e Estanho pela ação do fogo, e finalmente, por meio do Mercúrio, alcançamos a Prata e o Ouro, Lua e Sol.

Entretanto, os tratados canônicos do Corpus Hermeticum, em particular o I (o mais importante, junto com o Asclepius), o Poimandres, descrevem a descida e a subsequente subida da alma através das esferas planetárias (tema comum a toda a cultura helenística, sobretudo à gnose, tanto pagã quanto cristã). Esse tratado apresenta pontos de contato significativos com o texto bíblico do Gênesis (veja o clássico estudo de Dodd, A Bíblia e os Gregos), e confirma a afinidade entre temas herméticos e cabalísticos sugerida pela presença de símbolos judaicos na porta.

O Poimandres relata, de fato, a gênese do cosmos, a criação do primeiro ser andrógino [tema de valor simultaneamente alquímico e filosófico, presente nos versos de Palombara e obsessão constante de Cristina] e sua queda na matéria, e depois sua escalada de volta pelas esferas planetárias, graças à qual elimina todas as impurezas e se apresenta nu diante do “guardião da porta”, o próprio Poimandres [novamente o tema da porta], que o admite na ogdóade, na presença do Pai.

Esse segundo percurso filosófico parte de Saturno e retorna a Saturno — o planeta mais distante da Terra e mais próximo do reino supra-celeste, além das estrelas fixas. Como se sabe, Saturno também simboliza a feliz Idade do Ouro, conforme relatam Hesíodo, depois Ovídio e Virgílio, e até um texto pálio do século IX que preserva material avéstico com milhares de anos de antecedência (Denkard IX, Nask 1,7).

O segundo trajeto ascendente, que inicia na Lua, culmina no planeta-símbolo da Idade do Ouro, que não por acaso as doutrinas mitraicas associavam ao Sol e designavam como guardião do último grau da escala iniciática. A Idade do Ouro, por sua vez, é explicitamente evocada por Palombara, que usa o frontispício do Aureum Seculum Redivivum como símbolo da porta em seu conjunto.

As Inscrições Relativas aos Símbolos dos Planetas

Passo agora ao exame das inscrições ao lado de cada planeta, seguindo o percurso alquímico e algumas sugestões de Mino Gabriele. O tema comum às inscrições é o tema central da alquimia: o alcance da transformação dos metais vilos em Prata e Ouro através de passagens sucessivas do Negro primordial à brancura e brilho dos metais preciosos.

Comecemos, então, pela esfera de Saturno.
QUANDO IN TUA DOMO NIGRI CORVI PARTURIENT ALBAS COLUMBAS TUNC VOCABERIS SAPIENS
[quando na tua casa os corvos negros gerarem pombas brancas, então serás chamado sábio].
As partes voláteis da matéria queima­da no forno elevam-se, deixando os resíduos no fundo do vaso. Anuncia o propósito final do percurso alquímico, a passagem seguinte do Negro ao Branco. Encontraremos esse motivo na inscrição que acompanha o símbolo de Mercúrio. Ele está presente também em um poema do Palombara Bugia 179, «Da Corvo verás nascer a Pomba / Que verás vestir-se enfim de púrpura». Uma alusão ao tema fundamental da alquimia está no próprio brasão dos Palombaro: uma pomba branca sobre fundo azul.

Esfera de Júpiter.
DIAMETER SPHAERAE THAU CIRCULI CRUX ORBIS NON ORBIS PROSUNT
[o diâmetro da esfera, o tau da circunferência, a cruz do círculo não beneficiam os cegos].
Dessas inscrições derivam-se três figuras geométricas — círculo, triângulo e quadrado — presentes no frontispício de Madathanus, no emblema XXI de Maier e, sobretudo, no friso acima do dintel da porta. Elas não beneficiam os cegos, ou seja, quem sequer iniciou esse percurso.

Esfera de Marte.
QUI SCIT COMBURERE AQUA ET LAVARE IGNE FACIT DE TERRA CAELUM ET DE CAELO TERRAM PRETIOSAM
[quem sabe queimar com a água e lavar com o fogo faz da terra o céu e do céu terra preciosa].
É o tema da conciliação dos opostos, que parece ter sido retomado, segundo Mino Gabriele, da Tábua Esmeralda, à qual aliás se faz referência textual também no comentário ao I emblema de Maier. O próprio texto de Maier aborda a conciliação dos opostos no emblema XV.

Esfera de Vênus.
SI FECERIS VOLARE TERRAM SUPER CAPUT TUUM EIUS PENNIS AQUAS TORRENTUM CONVERTES IN PETRAM
[se fizeres a terra voar sobre tua cabeça com suas penas, converterás em pedra as águas dos riachos].
Também este parece ecoar o emblema XXXVI do Atalanta fugiens (Lapis projectus est in terras, & in montibus exaltatus, & in aere habitat, & in flumine pascitur, id est, Mercurius). As partes voláteis da matéria, graças ao fogo, elevam-se, enquanto se fixam as partes mercuriais mais sutis.

Ao lado de Mercúrio lê-se:
AZOT ET IGNIS DEALBANDO LATONAM VENIET SINE VESTE DIANA
[azote e fogo, ao branquear Latona, Diana virá sem vestes].
A referência ao emblema XI de Atalanta fugiens (Dealbate Latonam & rumpite libros) desta vez é explícita, pois aparece praticamente idêntico em uma canção do Palombara que é um longo comentário ao convite Dealbate Latonam & frangite libros [Bugia 178 ss.]. O mercúrio e o fogo tornam-branca, ou seja purificam, a matéria obscura. O motivo é central, e não por acaso já surgira na esfera de Saturno (os corvos negros tornam-se pombas brancas).

Passamos à esfera do Sol.
FILIUS NOSTER MORTUUS VIVIT REX AB IGNE REDIT ET CONIUGIO GAUDET OCCULTO
[nosso filho morto vive; o rei retorna do fogo e regozija-se do oculto matrimônio].
O tema do rei que ressuscita do fogo está presente no emblema XXIV de Atalanta fugiens. O matrimônio é o do enxofre com o mercúrio, como se vê no emblema XXXIII, que retoma o motivo do fogo que vivifica e fortifica, relacionando-o ao mito da Fênix, e novamente no emblema XXXV, em relação ao mito de Aquiles e Tétis. Esta esfera deveria ser a conclusiva, pois encontramos o ouro; resta porém uma esfera inferior, a da Lua, que em termos alquímicos corresponde à Prata. Mino Gabriele interpreta esse sinal como o símbolo da mônada, e lê o signo do Sol como Sol e Lua juntos, ou seja, como um composto de Ouro e Prata. Mas creio que o símbolo na soleira não seja a Mônada (que, aliás, difere completamente do símbolo da mônada geroglífica de John Dee), mas simplesmente a Lua, pelo motivo trivial de que os planetas são sete, e sete são os signos.

Na soleira, ao redor do signo da Lua, leem-se duas inscrições. A primeira é um palíndromo que soa SI SEDES NON IS, ou seja «se te sentas não vais» e «se não te sentas, vais». O convite é a ultrapassar a soleira, se desejas iniciar a jornada. A segunda inscrição parece reiterar o valor exortativo da primeira:
EST OPUS OCCULTUM VERI SOPHI APERIRE TERRAM UT GERMINET SALUTEM PRO POPULO
[é obra oculta do verdadeiro sábio abrir a terra para que gere a salvação do povo].
O verdadeiro sábio deve empreender essa viagem de salvação, que salvará a si mesmo e à humanidade inteira. A exortação a empreender uma jornada, que parte da esfera da Lua, a mais próxima da Terra, sugeriria a ideia do retorno da alma ao empíreo, fazendo supor uma predominância da leitura filosófica da porta sobre a alquímica.

Fonte: Luciano Albanese em www.academia.edu