A alma em viagem: quando Calábria e Brasil se encontram na música
Na embaixada do Brasil em Roma, o recital dedicado a Amedeo Rocco Armentano torna-se uma ponte entre dois países, duas culturas e uma história comum
Ser convidado à Embaixada do Brasil em Roma por um caríssimo amigo, hoje entre os mais prestigiosos representantes do Itamaraty, já é uma grande honra. Se quem te recebe é o embaixador Renato Mosca de Souza, diplomata formado na grande escola brasileira e homem de extraordinária cultura e sensibilidade, a emoção torna-se ainda mais intensa.
Ser, além disso, convidado do ministro da Cultura italiano, Alessandro Giuli, descobrindo de perto o seu preparo, a sua completude cultural e a eficiência da sua equipe, torna tudo ainda mais significativo. Mas quando todo o evento é dedicado a um grande compositor calabrês emigrado para o Brasil, então, para mim, atinge-se um momento de autêntico êxtase.
A esplêndida Sala Palestrina do Palazzo Pamphilj, sede da Embaixada do Brasil, na Piazza Navona 14, em Roma, recebeu o recital “A alma em viagem. Amedeo Rocco Armentano entre Brasil e Itália”, promovido pelo ministro da Cultura da República Italiana e pelo embaixador da República Federativa do Brasil.
O encontro realizou-se na segunda-feira, 14 de setembro de 2026, no sexagésimo aniversário da morte de Amedeo Rocco Armentano, músico, compositor e intelectual nascido em Scalea em 1886 e falecido em São Paulo em 1966.
A noite foi enriquecida pelo recital da pianista Silva Costanzo, com a participação do violinista Samuel Dias. Por meio do piano e do violino, os dois artistas devolveram voz e profundidade ao legado musical de Armentano, transformando a homenagem numa autêntica viagem da alma entre a Calábria e o Brasil.
Não uma simples celebração, portanto, mas um encontro vivo com a música, capaz de atravessar o tempo e o oceano.
Belíssima também a imagem escolhida para o convite oficial: um piano preto do qual se elevam ondas sinuosas que entrelaçam as cores do Brasil e da Itália. O verde, o ouro e o azul brasileiros encontram o branco, o vermelho e o verde italianos, traduzindo graficamente o significado mais profundo da noite: dois países, duas culturas e uma única alma musical.
Foi uma noite de alta música, de encontros autênticos, de coisinhas brasileiras e do indispensável pão de queijo. Sentado ao lado do advogado D’Amico, pude cumprimentar amigos e numerosas personalidades, vendo-me imerso num ambiente em que cultura, diplomacia e relações humanas se fundiam com naturalidade.
Particularmente significativa foi a presença do prefeito de Scalea, Mario Russo, e da secretária municipal de Cultura e de Relações com os entes locais e supramunicipais, Annalisa Alfano. Com eles estavam também a superintendente de Arqueologia, Belas-Artes e Paisagem da província de Cosenza, Paola Aurino, as sobrinhas-netas do compositor, Giselda e Silvia Armentano, e parte da família italiana e brasileira.
Amedeo Rocco Armentano não foi apenas um músico emigrado. Sua vida representa ainda hoje uma ponte entre Scalea e São Paulo, entre a Calábria e o Brasil, entre uma terra deixada fisicamente e uma identidade nunca esquecida.
Seu vínculo com Torre Talao, lugar onde quis criar um centro de estudos inspirado na tradição pitagórica, acrescenta à sua trajetória musical uma dimensão filosófica e espiritual. Armentano levou consigo para o Brasil a Calábria mais profunda: não apenas uma origem geográfica, mas um patrimônio de pensamento, memória e pertencimento.

Amedeo Rocco Armentano e a Torre Talao
Entre os convidados da noite, uma presença realmente especial: a princesa Elettra Marconi, filha do grande Guglielmo Marconi, o homem que revolucionou para sempre as comunicações.
Também neste caso existe um fio extraordinário que une Roma ao Brasil. Em 12 de outubro de 1931, de seu escritório na via Condotti, em Roma, Guglielmo Marconi acionou o dispositivo que enviou o impulso destinado a acender as luzes do Cristo Redentor do Rio de Janeiro. O sinal, partindo de Roma, chegou à estação de rádio de Coltano, foi retransmitido para a Inglaterra e então enviado ao Brasil, até o sistema de iluminação do monumento no Corcovado.
Não do navio Elettra, portanto, mas de Roma: um gesto realizado a milhares de quilômetros de distância, que se tornou uma das mais sugestivas demonstrações das possibilidades oferecidas pelas ondas de rádio.
Quase um século depois, na mesma cidade, a presença da princesa Elettra Marconi assumiu um significado ainda mais profundo. Em 1931, um sinal invisível atravessou o oceano para iluminar o símbolo do Rio de Janeiro; em 2026, foram a música e a memória de um calabrês emigrado que reuniram novamente Itália e Brasil.
A noite permitiu também conhecer mais de perto o ministro Alessandro Giuli, homem completo, culto e capaz de surpreender pela vastidão de seu preparo, acompanhado de uma equipe eficiente e atenciosa. Ao mesmo tempo, reencontrar Renato Mosca de Souza significou reabraçar um querido amigo que se tornou um dos representantes mais respeitados da diplomacia brasileira.
Um diplomata de altíssimo nível, mas sobretudo um homem capaz de conservar humanidade, simplicidade e atenção para com os outros.
Itália e Brasil reencontraram-se, assim, na cultura, na música, na memória da emigração e na capacidade de construir pontes. Foi uma daquelas ocasiões em que se compreende que a diplomacia mais autêntica não nasce apenas dos protocolos, mas das pessoas, das histórias e dos sentimentos compartilhados.
Uma noite belíssima, certamente. Mas sobretudo uma noite capaz de nos lembrar que se pode deixar a Calábria sem que a Calábria jamais nos deixe.
Andrea Ruggeri
RUGGERI, Andrea. L’anima in viaggio: quando Calabria e Brasile si incontrano nella musica. U Riggitanu, 16 set. 2026. Disponível em: https://www.uriggitanu.it/l/l-anima-in-viaggio-quando-calabria-e-brasile-si-incontrano-nella-musica/
Traduzido por ♃268
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